E se tudo fosse igual?

E se todas as rosas fossem iguais?

Qual seria a graça do mundo

Se em cada pétala, rosa, de rosa

Víssemos uma cópia do que vimos

Num jardim distante, num país distante,

No nosso próprio jardim?

E se todos os brinquedos fossem iguais?

Qual seria a graça de uma brincadeira

Com o meu e o teu brinquedo

Se eles se misturam e confundem

Nas minhas mãos e nas tuas

Como um só?

E se todas as casas fossem iguais?

Qual seria a graça de visitar

Pela primeira ou última vez

Aquele que chegou para ficar

Ou aquele que parte sem regresso marcado?

E se todas as aulas fossem iguais?

Qual seria a graça de aprender

O aprendido

E saber de cor a mesma matéria

Dada uma e outra vez?

E se todos os filmes fossem iguais?

Qual seria a graça de comer pipocas

Numa sala cheia, escura

Em que vence sempre o mesmo herói

E é salva a mesma princesa?

E se todos os lápis fossem iguais?

Qual seria a graça de pintar

Na folha solta do caderno

Um mundo tão vasto e diverso

Em variados tons de uma só cor?

E se todos os amigos fossem iguais?

Qual seria a graça de uma amizade

Espelho de todas as outras

Sem brigas inesperadas

Nem momentos inesquecíveis?

E se todas as famílias fossem iguais?

Qual seria a graça de cumprir a rotina

Que reina em todas as casas vizinhas

Que é entendida, por ser reproduzida,

Aqui e em qualquer lugar?

E se todas as opiniões fossem iguais?

Qual seria a graça de trocar ideias

Falar honesta e apaixonadamente

Sobre grandes questões ou corriqueiras

Se eu e tu pensamos da mesma maneira?

E se todas as roupas fossem iguais?

Qual seria a graça de vestir para uma festa

Uma camisa igual

Àquela que levas para a escola, impecável,

E se amachuca no recreio?

Se tudo fosse igual, o mundo era um lugar mais triste

Não havia cor, nem sabor algum.

E, de tudo o que existe,

Talvez a diferença

Seja o que devamos todos proteger por igual.