Sentimentos Transcritos

“The more I hold myself close and fully embrace who I am, the more I thrive.” – Elliot Page


Muito haveria a escrever sobre género. Desde a sua dimensão contínua, num variado espectro de possibilidades, até ao que significa viver o seu género, expressá-lo, vê-lo reconhecido nos olhos daqueles com quem contactamos todos os dias. Consciente de que a vivência do género ainda constitui uma verdadeira batalha diária para uma parte da população, especialmente no que toca a questões de saúde física e mental, fui em busca de quem pudesse partilhar comigo alguns dos seus sentimentos e vivências enquanto pessoa trans, que transcrevo, aqui.


Transcrevo, aqui, em primeiro lugar, a complexidade que Noah pensa indispensável focar quando se fala de género: “Para a sociedade as pessoas têm uma “transição” quando se destacam da norma, mas a verdade é que algo tão complexo como uma “transição” não acontece apenas pelos olhos dos outros. Para todas as pessoas é algo diferente, entre tomar ou não hormonas, vestir ou não algo que quebra com o que é esperado…em comum temos as normas que nos limitam, o controlo que tentam forçar sobre os nossos corpos e a nossa mente, e o poder que temos para abolir tudo isto”.



Transcrevo, aqui, a revolta e preocupação do Isaac, quando insistem com ele, no centro de vacinação, que o marcador de género no seu cartão de cidadão determina, independente da sua história, que vacina vai tomar. A vacina disponível para si é a que “está a ser administrada a todos os rapazes”, dizem-lhe, desvalorizando o facto de ser um rapaz trans, e das conhecidas contra-indicações dessa vacina em pessoas com exposição prolongada a estrogénio. Para o Isaac, que teve um grande apoio por parte da família e amigos, o que mais o magoa é que desconfiem da sua identidade. Que o tenham questionado, e por vezes ainda questionem, se tem certezas de quem é. Quando lhe pergunto o que devem os profissionais de saúde ter em atenção quando interagem com uma pessoa trans, dá-me uma resposta simples: “É respeitar a dignidade e a integridade da pessoa”. Fala-me de pequenos (enormes!) pormenores que fazem toda a diferença, como perguntar qual o nome e os pronomes com os quais a pessoa se identifica, e usá-los corretamente; não estereotipar ninguém pelas suas características físicas, nem pelos brinquedos com que brincava na infância.


Transcrevo, aqui, a frustração da Maria João, com a quantidade de burocracias, avanços e recuos, de um processo de transição assegurado pelo Serviço Nacional de Saúde. Conhece casos que demoraram anos, processos que perderam seguimento sem qualquer explicação, cirurgias com resultados pouco encorajadores. Viajou até ao estrangeiro para acelerar este processo que a permitia viver em plenitude no seu género. Segundo a Maria João, “Não se consegue saber a 100% o que é ser trans por livros, fotografias, nem mesmo por entrevistas a pessoas trans”, pelo que sente que serem apenas pessoas cis a tomar decisões sobre o seu processo de transição é profundamente errado, sugerindo que deveriam existir formações dos profissionais de saúde envolvidos neste acompanhamento dadas por pessoas trans. Considera que é preciso mais investimento, mais interesse e disponibilidade, maior formação e sensibilização de profissionais para esta questão.


​Transcrevo, aqui, a insegurança sentida pelo Salvador, no complicado pós-operatório de uma histerectomia, em que teve pouco apoio e poucas respostas às muitas perguntas que lhe assolavam o espírito. Num processo complexo, que inclui psiquiatras, psicólogos, endocrinologistas e cirurgiões, a coordenação de todas estas especialidades de saúde, muitas vezes, não é bem estabelecida, e, no seu caso em particular, falhou. Enumera-me vários endocrinologistas por onde passou desde a cirurgia, a necessidade de recontar a sua história, uma e outra vez, apenas para garantir a monitorização dos níveis hormonais e algumas receitas. Ter perdido seguimento no hospital em que realizou a cirurgia é algo que o preocupa. 


​Transcrevo, aqui, o sentimento de alívio do Mateus por ter possibilidades económicas de recorrer aos serviços de saúde privados, onde sabia que o processo seria mais célere. “Nunca senti discriminação nem desconforto com nenhum profissional de saúde, apenas alguma curiosidade devido à pouca informação disponível sobre o tema”, refere. Quando pergunto o que considera mais importante os profissionais de saúde terem em atenção no acompanhamento de casos como o seu, não tem dúvidas: “Não questionar a certeza do paciente, nunca questionar se será uma fase”.


Noah, o Isaac, a Maria João, tal como o Salvador e o Mateus, partilharam comigo, e convosco, um pouco da sua história. Porque o preconceito tem muitas vezes origem no que nos é desconhecido, todos reconhecem a importância de ligar pessoas e histórias reais aos números e estatísticas reportados nas notícias. Espero ter conseguido, através das suas e minhas palavras, deixar um testemunho que nos incentive sempre, enquanto pessoas e futuros psicólogos, a respeitar a identidade de cada um. Parece simples, vamos honrar a promessa?

In Fpul et al. (Fevereiro de 2022)

Ps. Tive a honra de poder contar não só com as palavras da Maria João, como também com um pouco da sua arte a ilustrar o meu artigo. Vale a pena visitar a sua página de Instagram onde se encontram estas e outras esculturas.