Coronials

Maio de 2035

A cidade está em festa. O país também. A primeira-ministra fala na televisão sobre o derradeiro fim da pandemia. Um dia histórico. Portugal erradica, oficialmente, a COVID-19.

O meu pai, que nunca vi sorrir desde que me lembro que existo, irradia uma felicidade contagiante, apoiada de perto pelo olhar esperançoso da minha mãe. “A vida vai finalmente voltar ao normal!”, anunciam. Um normal que não conheço, que nunca vivi, referente a tempos idos, mas que todos garantem ser melhor que o “novo normal” em que cresci. Confesso que me confunde um pouco, que o antigo normal seja tão inequivocamente melhor que este em que nos encontramos. É uma espécie de progresso ao contrário, em que o regresso do antigo traz uma frescura que abençoa toda a Humanidade. É uma forma de amor ao passado que não se restringe a uma geração mais velha, que em vez de segregadora constitui um elo de união entre todas as gerações. Até nós, os chamados “Coronials”, ainda que não compreendendo totalmente o significado de tudo isto, nos deixamos levar por algo tão forte, sem pedir explicações.

Nasci em julho de 2019, período ao qual os meus pais se referem como o “último verão das suas vidas”. Não os condeno. Pelo que contam, nessa altura cometiam-se loucuras que hoje em dia seriam impensáveis, nestes verões que vão passando, para eles em branco, ano após ano. Tenho pena que não entendam como é bom ver o sol da nossa varanda; como são boas as duas horas diárias de praia, naquela área restrita de areia que reservámos só para nós, longe de possíveis contaminações, nos dias escaldantes de agosto; como é bom o mergulho no mar a que temos direito quando o nadador-salvador finalmente anuncia o número da nossa senha pelo megafone; como são deliciosos e refrescantes os sumos bebidos pela palhinha debaixo da máscara. Em vez disso, queixam-se. Falam de uns bolos muito doces que se vendiam na praia, quando era permitido comer em espaços públicos. Falam de longos e livres passeios pelo areal, sem ordem nem sentidos de circulação definidos. Falam de pessoas que jogavam raquetes, que jogavam à bola de várias formas, com as mãos e os pés, de crianças que faziam buracos na areia e se enterravam umas às outras, todas ao molho e sem distâncias de segurança. Questiono-me como seriam esses selvagens dias de praia, e esses passeios, uns a correr, outros parados, cada um para onde lhe apetecesse. Causa-me grande desconforto imaginar essa confusão de gente, em riscos desnecessários e sem qualquer privacidade.

O smartphone vibra em cima da mesa. Cento e vinte notificações indicam que o fim está próximo. Ou o início. É confuso. Os vários grupos de mensagens são incendiados com comentários ao que se está a passar. As escolas, como nunca as conhecemos, vão abrir portas a todos nós. Não é uma metáfora, como estão a pensar. Portas e portões físicos abrir-se-ão na próxima semana, deixando entrar milhares de alunos que irão partilhar salas de aula durante um dia inteiro, a respirar o mesmo ar, cinco dias por semana. As opiniões divergem: a maioria está muito entusiasmada com a novidade, com a oportunidade incrível que é passar o dia em contacto não-virtual com aqueles de quem mais e menos gostam; outros, como eu, não adoram esta brusca mudança nas suas vidas. E se não gostarem de nós? O corpo real, como sabemos, é difícil de mudar e atualizar, de modo a encaixar bem em diversos contextos. O avatar que nos representa nas aulas virtuais, pelo contrário, oferece mil possibilidades de agradar a todos os gostos. Ou aos gostos mais…comuns. O avatar que dá a cara por mim na interação com os meus colegas não representa, agora que penso nisso, tão fielmente a imagem que vejo refletida no espelho do meu quarto. No mundo virtual em que sempre vivi sou mais elegante, de formas mais finas e alongadas. O cabelo comprido, sempre brilhante, e cuja cor varia constantemente, não sofre as influências reais dos picos de hormonas característicos da fase da adolescência em que me encontro. O batom vermelho, as longas pestanas e até o brinco no nariz, algumas das minhas características virtuais favoritas, seriam motivo mais do que suficiente para um bom castigo. As saias e macacões elegantes e coloridos, as mil e uma combinações diferentes de roupa que exibo diariamente não caberiam nunca no armário do meu quarto. No mundo real, o pijama é a minha farda diária. Conclusão: preciso de roupa, agora que sair de casa se vai tornar rotina.

O almoço está na mesa. Brindamos. O meu pai anuncia que esta noite jantaremos fora, partilhando a mesma mesa com vários amigos. Acaba de marcar uma mesa para DOZE no nosso restaurante preferido. Nunca lá fui, sempre pensei que funcionava apenas como uma cozinha onde era preparada a deliciosa comida que nos chegava a casa através do rapaz das entregas. Descubro, agora, que era um local de convívio antes da pandemia. Com salas cheias: cheias de gente, de ruído e de vida; aonde a comida chegava ainda a fumegar ao prato de cada um. Pergunto-me como irá correr este jantar de celebração. Numa mesa tão grande e com tanta gente a comer junta. Haverá espaço suficiente para todos estarmos à vontade? Será que vão falar todos ao mesmo tempo? Parece-me difícil seguir várias conversas em paralelo. Sempre gostei de jantares com amigos, daqueles que não implicam qualquer risco para a saúde: cada um confortavelmente em sua casa, os computadores ligados, as várias caras a aparecer no ecrã, a maioria com filtros que lhes conferem bigodes de gato, coroas de flores ou simplesmente uns retoques aqui e ali, aquela introdução característica em que cada um partilha com o grupo a ementa em sua casa nesse dia e se trocam rapidamente receitas e dicas culinárias, seguida de uma maratona de jogos coletivos em rede.

Tocam à porta. Não é o rapaz das entregas, nem o correio, a que estou habituada. São os meus tios e primos. Todos sem máscara, exibindo sorrisos despreocupados, cumprimentam-nos a todos com um beijinho em cada bochecha e irrompem pela casa adentro, numa atitude que nunca lhes conheci. “Viram as notícias? O pesadelo acabou!”, exclama o meu tio satisfeito, servindo-se de um copo de vinho. Todos festejam, não da forma contida que sempre vi, mas com uma liberdade imensa nos gestos e na postura, que o meu cérebro processa como libertinagem. É este o antigo normal? Pessoas tão próximas, beijinhos nas faces e abraços a despropósito? Era deste (claro excesso de) contacto físico que falavam? Eram visitas não anunciadas e aglomerados repentinos de pessoas na nossa sala de estar? Corro a abrir a janela, receando que o ar escasseie. Festejemos, mas em segurança.

No meio de tudo isto, esqueci-me do João. Estaria ele à minha espera para o nosso date habitual? Teria recebido notificação. Apalpo os bolsos das calças. Onde raio está o meu smartphone?! Corro ao quarto. A cara redonda do João enche o ecrã do computador. Nunca se atrasou para nada, este miúdo. “Viste as notícias??? Vai tudo mudar! Vamos ser mais livres!” Afinal não estava zangado, não havia lugar para isso, agora que rebentava num misto de sentimentos que queria partilhar comigo, para isso servem as namoradas, segundo ele. Contou-me rapidamente sobre o ambiente de euforia que se vivia em sua casa, algo de outro mundo, não se dando tempo sequer de ouvir que esse fenómeno não era assim tão original, que aqui se passava exatamente o mesmo. “A minha mãe coseu todas as nossas máscaras comunitárias, numa grande bandeira que hasteou à janela. Já viste as fotos nas redes sociais??”, questiona. “A minha irmã amuou ao ver algumas das suas melhores combinações de vestido e máscara desfeitas”, sorri. Explico, finalmente, que não vi nada, que o tempo tem passado de forma estranha, que um transe coletivo se apoderou de todos à minha volta, que estou numa ansiedade crescente, que tudo isto me assusta. O João, também visivelmente inquieto, tenta reconfortar-me. “Os meus pais sugeriram que te levasse ao cinema, mal abrisse”, e, perante a minha cara de surpresa, prosseguiu “Dizem que vamos gostar, é uma grande sala escura onde várias pessoas assistem ao mesmo filme num ecrã gigante!”. “Quantas pessoas são? E por que haveríamos de ir todos à mesma hora ver o mesmo filme?!”, questiono, visivelmente desagradada com tal ideia. “Oh, anda lá, dizem que era um dos melhores programas românticos do pré-pandemia, temos que experimentar!”. Aceito, desconfiada, este convite longínquo, sem data nem hora marcadas. Ele desliga feliz e isso é o que importa para mim. Vamos descobrir o que é um cinema, juntos. Desvendaremos o que torna uma sala escura, dividida com estranhos, em frente a um ecrã gigante onde passa um único filme (cuja escolha, estranhamente, agrada a todos!) no cenário romântico ideal. É só a mim que isto soa a loucura?!

Preparo-me para o jantar. Penso nesta nova conquista. No mundo novo que terei de enfrentar. Não morri da doença, tenho medo de não resistir à cura.

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